Centenário de Mário da Gama Kury (1922-2022)

Postado em Filosofia Sem categoria |

28 de dezembro de 2021

O ano de 2022 marca o centenário de nascimento do tradutor Mário da Gama Kury (Acre, 1922 – Rio, 2016), um dos maiores helenistas do país. Para homenageá-lo, a Editora Madamu publica aqui informações pouco divulgadas sobre a vida de Gama Kury, que teve uma longa carreira como funcionário da Companhia Vale do Rio Doce. Ingressou na Companhia na década de 1940 e lá permaneceu até a aposentadoria, no final da década de 1970. Em 1955 casou-se com Nadyr Kury, mas não teve filhos.

COMO FUNCIONÁRIO DA VALE

Uma das formas de resgatar a memória de Gama Kury é ler a entrevista que ele concedeu para o Museu da Pessoa, disponível aqui. Gama Kury relata que “trabalhou muito no exterior, dentro da Companhia Vale do Rio Doce, nas filiais do exterior”, de forma que só mesmo na aposentadoria é que passou “a trabalhar mais aqui no Brasil. Muito tempo eu trabalhei no exterior […] Alemanha, Dusseldorf, onde eram os escritórios da Companhia, basicamente era a Alemanha a maior consumidora. Depois era o Japão, fui muitas vezes ao Japão também e ainda hoje cultivo boas amizades lá, não é?” Sua sobrinha, Marcia Braga, relata que costumava passar férias no exterior, na casa do tio, quando ele morava nos EUA. Foi ela que nos cedeu as imagens reproduzidas neste post.

Seu conhecimento da história da empresa era tanto que, incentivado pelos colegas, escreveu o livro lançado em 1982 pela Nova Fronteira – Companhia Vale do Rio Doce 40 anos. Obra rara, é citada como fonte documental para os livros que a CVRD editou aos 50 anos e aos 70 anos de existência. Uma das fotos acima, feita na China em 1978, mostra a comitiva brasileira da Vale por ocasião da primeira remessa de minério para aquele país. Mário da Gama Kury, já aposentado, foi convidado por ter participado de toda a negociação que antecedeu o contrato.

COMO TRADUTOR

No campo da tradução, ele foi o pioneiro na divulgação de diversos textos de autores clássicos gregos no Brasil. Sua vasta contribuição se iniciou pelo teatro, com destaque para as traduções de Electra de Sófocles (1958), Agamenon de Ésquilo (1964), Lisístrata e A Revolução das Mulheres, de Aristófanes (1964), entre outras. Em seguida, dedicou-se à tradução das principais obras de historiografia grega (1981-1983): Histórias de Políbios, Histórias de Herôdotos e a História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides. As três serão reeditadas em 2022 pela Editora Madamu.

Por fim, Gama Kury se lançou à tradução do maior filósofo ocidental: Ética a Nicômacos (1982) e Política (1983) de Aristóteles. São ainda de sua autoria as traduções de Diogenes Laertios (Vidas e doutrinas dos Filósofos Ilustres) e Marco Aurélio (Meditações), além da elaboração do Dicionário de Mitologia Grega e Romana e da tradução do Dicionário Oxford de Literatura Clássica.

No fim da vida, debilitado por doença degenerativa, Gama Kury não podia mais se dedicar aos livros. Em 2012 sua esposa faleceu e, em 2013, a família doou 1.700 livros de sua biblioteca para a Academia Brasileira de Letras. Mario da Gama Kury morreu em 2016, no Rio de Janeiro, aos 94 anos. Na última foto da galeria, ele aparece ao lado de sua sobrinha, Márcia Braga.

Como diz Matheus Vargas de Souza, em seu estudo da antiguidade indiana no Brasil, “Há  uma  tradição  de  críticas  às  traduções  gregas  de  Mário  da Gama Kury e a defesa que se faz dele é que, efetivamente, ele fez mais pelo campo do que muitos que o criticaram, permitindo a estudantes que iniciam seus estudos diversificarem  seu  conhecimento dos textos gregos e, portanto, seus  interesses  de pesquisa.  Nesse  sentido, avaliar o importante,  mas  limitado, papel dos linguistas brasileiros no estudo do sânscrito nos leva a questionar se a Índia Antiga não precisa de um Mário da Gama Kury com urgência.” (SOUZA, 2021).

Posts Recentes

Nicômaco ou Nicômacos: qual é o certo?

Livro “As palavras e a lei” ganha nova edição revista e atualizada

Nota de falecimento: Zelia de Almeida Cardoso

Otávia: uma tragédia latina que ecoa até os nossos dias no teatro e no cinema

A nova edição da Lei das XII Tábuas: um desafio e tanto!

Os Amores de Philippe: um romance esquecido por 140 anos

A Escrava Isaura: uma mulher que encanta os brasileiros até hoje!

Folhetim em Grande Estilo: o desafio de publicar um clássico

A Madamu agora tem um blog!

Siga-Nos

Blog da Editora Madamu - © 2021 - 2022 - Todos os direitos reservados