Nicômaco ou Nicômacos: qual é o certo?

Postado em Filosofia |

19 de janeiro de 2022

O nome correto de uma das mais importantes obras de Aristóteles, em português deve ser Ética a Nicômaco ou Ética a Nicômacos? Essa é a dúvida que vamos responder agora.

Desde que a Editora Madamu relançou a tradução da Ética a Nicômacos feita por Mário da Gama Kury, a polêmica em torno do nome é constante. Afinal, apenas Gama Kury adota o nome “Nicômacos” , enquanto todas as outras traduções preferem “Nicômaco”. Como o tradutor morreu em 2016, temos que buscar em seus textos algumas pistas para entender a sua opção pelo nome com “s” no final.

Na introdução à Ética a Nicômacos, Mário da Gama Kury menciona que

“Para os nomes próprios em geral adotamos o critério da transliteração do original, salvo nos casos de formas absolutamente consagradas em português, como Homero em vez de Hômeros (no caso de personagens históricos), como Alexandre (o Grande) e Filipe (o pai de Alexandre), adotamos a forma tradicional, mas quando se trata de homônimos sem conotações históricas usamos a transliteração (Alêxandros, por exemplo). Neste ponto as incoerências são inevitáveis, mas a transliteração parece perfeitamente defensável, pois é mais compatível com o princípio da fidelidade ao original.”

Assim sendo, podemos deduzir que Nicômacos seria a transliteração do nome próprio masculino em grego, princípio adotado por Gama Kury. Mas a dúvida persiste: porque as outras versões adotam Nicômaco?

Nossa investigação nos leva a outro texto de Gama Kury, onde podemos encontrar pistas para formular uma resposta. Na introdução à tradução da História de Herôdotos, Mário da Gama Kury nos diz que

Não pretendemos ter sido absolutamente coerentes na transcrição dos nomes próprios (afinal são milhares de topônimos, gentílicos e antropônimos); seguimos também nesse ponto o princípio adotado nas traduções anteriores, de respeitar fielmente a forma original dos nomes gregos ao invés de alatiná-los ou aportuguesá-los (note-se que nos nomes próprios transliterados o “c” e o “g” são sempre duros, mesmo antes de “e” e “i”). Limitamos as exceções a nomes como Homero e Ésquilo, onde o uso reiterado, a exemplo do que acontece com Platão e poucos outros, justifica a adoção dessas formas. Nesse ponto fomos ainda mais longe do que em nossa tradução de Tucídides, e nos sentimos em boa companhia nessa prática, pois ela vem sendo preferida cada vez mais nas traduções inglesas e francesas, para não falar nas alemãs. Afinal, trata-se de nomes próprios estrangeiros e não nos parece haver razões mais fortes para fazê-los chegar ao português através de suas formas alatinadas (não há por que perseverar nesse procedimento medieval, instituído numa época em que a literatura grega era considerada subsidiária da latina no Ocidente europeu).

Como nossa inferência, podemos dizer que os textos que optam por Nicômaco adotariam, em tese, como procedimento tradutório o caminho grego – latim – português. Mário da Gama Kury, até onde sabemos, teria sido o único tradutor a optar pela transliteração direta do grego para o português. Sabemos ainda, por suas informações, que as traduções de Aristóteles feitas por Gama Kury adotaram como ponto de partida o texto estabelecido por Immanuel Bekker em 1831 para Ética a Nicômacos, e o texto editado por F. Susemihl na coleção Teubner (1882) para a Política. Portanto, traduções diretas do grego.

Com relação ao Nicômaco ou Nicômacos, há um “certo” e um “errado”? Acreditamos que não. Seja como for, a contribuição de Mário da Gama Kury para o estudo dos textos clássicos gregos no Brasil é indiscutível.

Há ainda uma observação interessante sobre a sequência de traduções realizadas por Mário da Gama Kury. Sua primeira tradução de teatro grego é Electra, de 1958. Outras peças foram traduzidas ao longo da década de 1960. Depois, dedicou-se à filosofia e traduziu a Política de Aristóteles e a Ética a Nicômacos. Em seguida, enfrentou os grandes historiadores gregos, com a História da Guerra do Peloponeso, a História de Herôdotos e, por fim, a História de Políbios. Traduziu também um dicionário de mitologia grega e romana, e o Curso de Filosofia Grega, escrito em inglês por John Victor Luce (seu último trabalho).

PS.: Se você quer conhecer a tradução de Mário da Gama Kury para a Ética a Nicômacos, clique aqui e baixe uma amostra em pdf. E aproveite para adquirir a obra na versão capa dura!

Posts Recentes

Centenário de Mário da Gama Kury (1922-2022)

Livro “As palavras e a lei” ganha nova edição revista e atualizada

Nota de falecimento: Zelia de Almeida Cardoso

Otávia: uma tragédia latina que ecoa até os nossos dias no teatro e no cinema

A nova edição da Lei das XII Tábuas: um desafio e tanto!

Os Amores de Philippe: um romance esquecido por 140 anos

A Escrava Isaura: uma mulher que encanta os brasileiros até hoje!

Folhetim em Grande Estilo: o desafio de publicar um clássico

A Madamu agora tem um blog!

Siga-Nos

Blog da Editora Madamu - © 2021 - 2022 - Todos os direitos reservados