Os Amores de Philippe: um romance esquecido por 140 anos

Postado em Letras Grandes Literatura |

6 de junho de 2021

Caro leitor,

É verdade! Você nunca ouviu falar do romance Os amores de Philippe! Apesar do reconhecimento internacional, Os amores de Philippe é praticamente desconhecido dos leitores de língua portuguesa. Por isso, permita-me tecer alguns esclarecimentos.

Les amours de Philippe” foi publicado na França em 1877, quando seu autor já gozava de enorme prestígio – Feuillet era membro da Academia Francesa desde 1862. O lançamento despertou a atenção de um editor do Brasil que encomendou, a toque de caixa, a tradução para o português. Assim, antes mesmo do fim daquele ano, os brasileiros conheceram “Os amores de Filipe”, na versão da Livraria Garnier, do Rio de Janeiro. Trinta anos depois, foi a vez da Livraria Chardron, de Lisboa, encomendar nova tradução e oferecer aos portugueses a obra de Feuillet.

Em 2017, quando o romance completou 140 anos, a Editora Madamu ofereceu esta nova tradução – que é a terceira em língua portuguesa, e separada de sua antecessora por décadas de um esquecimento que consideramos injusto. Com notas e ilustrações, nossa edição convida o leitor a mergulhar em uma atmosfera romântica e aristocrática, para acompanhar uma trama que ainda hoje envolve, seduz e surpreende.

Por fim, uma explicação sobre a forma. O leitor logo perceberá que a pontuação deste texto não segue os usos e costumes atuais. Na medida do possível, procuramos resgatar a pontuação original de Feuillet, a fim de mostrar como sua prosa era criativa, dinâmica e elegante.

Visite nossa loja e saiba mais sobre Os Amores de Philippe, o segundo título da Coleção Folhetim em Grande Estilo.

ENREDO
Philippe de Boisvillier nasceu em uma aristocrática família da Provence. Como era comum no séc. XIX, desde garoto o seu casamento com a prima Jeanne estava acertado. Mas ele não gostava nem um pouco dela. Quando concluiu os estudos no Liceu Louis Le Grand, deveria voltar para a cidade natal, casar com a prima e assumir as propriedades da família. Contudo, Philippe convenceu o pai de que ele seria mais bem-sucedido estudando Direito em Paris… E ao viajar para a capital, deixaria para trás o tormento de um casamento forçado com a odiosa prima. Mas o destino colocaria Jeanne outra vez em seu caminho, de forma surpreendente!

SOBRE O AUTOR
Da pena de Octave Feuillet surgiram dramas e romances sedutores, refinados, românticos, fluidos e cativantes: resultado de seu olhar minucioso sobre a sociedade parisiense do século XIX.
Nascido em Saint-Lô, região da Normandia, em 1821, realizou seus estudos secundários em Paris, em uma instituição localizada no Quartier Latin, e foi um aluno brilhante. O pai, viúvo desde a tenra infância de Feuillet, queria o filho diplomata. Porém, quando o jovem Octave comunicou seu desejo de se tornar escritor, foi renegado e perdeu a mesada paterna.
Com dificuldade para se manter na capital francesa, começou a publicar alguns textos com o pseudônimo de Désiré Hazard. Tinha amizade com Paul Bocage (sobrinho de uma estrela da comédia francesa – Pierre-François Bocage) e juntos começaram a escrever peças que foram submetidas ao crivo da celebridade, sendo algumas delas encenadas. Juntos, Feuillet e Bocage alcançaram algum sucesso, ainda que as peças não tivessem a marca registrada do estilo Feuillet. Obtiveram certo êxito, fato que levou o pai a perdoar o jovem Octave e restituir-lhe a ajuda financeira mensal. Desta forma, morando na sua adorada Paris, livre e com recursos, conseguiu publicar os primeiros romances, ainda inferiores às suas obras mais proeminentes.

Em 1850, por causa da saúde debilitada, o pai pede à Feuillet que volte a Saint-Lô. Foi um grande sacrifício, mas Octave acatou o pedido e deixou Paris para ficar ao lado do pai. No ano seguinte casou-se com sua prima, Valérie Dubois, filha do prefeito de Saint-Lô, que também era escritora e com quem teve dois filhos. Segundo relatos biográficos, Valérie e sua mãe foram as grandes apoiadoras de Feuillet na reclusão, pois eram as primeiras a conhecer as obras antes que fossem enviadas aos editores.

Considerava a vida na região um exílio forçado e, talvez por estar nesta situação, foi neste período que escreveu suas melhores obras. Seu primeiro grande sucesso deu-se em 1852 – Bellah. Com produção literária ininterrupta, em 1858 publicou aquele que talvez seja o seu mais famoso livro – O Romance de Um Rapaz Pobre, traduzido para vários idiomas, inclusive para o português, por Camilo Castelo Branco (e com roteiro adaptado para o cinema no século XX).

Seu pai faleceu no auge do sucesso desta publicação. Após a morte do pai, Feuillet vendeu a propriedade em Saint-Lô e voltou a Paris, onde continuou seu ofício. Em 1859, a morte precoce de seu filho mais velho debilitou sua saúde, e ele resolveu regressar à Normandia, vivendo em local muito próximo à casa paterna. Lá permaneceu por 15 anos, indo apenas esporadicamente a Paris.

Foi na década de 1860 que o sucesso de Octave Feuillet o aproximou da Academia Francesa de Letras. Sua nomeação, contudo, sofreu certa resistência dos demais integrantes da Académie Française, e apenas na terceira tentativa, em 1862, foi eleito para ocupar a cadeira nº 13 – foi o primeiro romancista a ingressar na instituição. Era uma época em que o naturalismo já dava sinais de tendência literária, mas Feuillet mantinha-se fiel ao seu estilo romântico. Curiosamente, seu sucessor na cadeira nº 13 foi outro romancista famoso em sua época – Pierre Loti.

Feuillet era monarquista, e em 1868 foi indicado por Napoleão III para assumir o posto de bibliotecário do Palácio de Fontainebleau: uma honraria que aproximou o casal Feuillet da mais alta corte francesa. Entretanto, o sucesso de Feuillet não resistiu à derrota da França na guerra franco-prussiana (1870-1871). Com problemas financeiros, precisou se desfazer de sua moradia, enfrentou depressão e uma surdez pronunciada, falecendo em Paris em 1890, aos 69 anos.

A sociedade parisiense, que havia se acostumado ao seu tipo específico de prosa, ficou órfã. Suas obras retratam os costumes da aristocracia parisiense em contraponto à simplicidade do campo: as personagens são perspicazes – algumas até moralmente questionáveis – e ingênuas. As mulheres são perturbadoras e quase sempre referências de personalidades da época. Tudo isso faz de seu texto uma deliciosa leitura, inclusive contemporânea.

Aliás, não é por acaso que deixamos para o final estas poucas palavras sobre o autor. Após conhecer Philippe de Boisvilliers, diga-nos, caro leitor, se ficção e realidade não se confundem?

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